Quais são as consequências de não fazer o inventário?

A ausência do inventário não faz a herança desaparecer, mas pode trazer uma série de dificuldades para os herdeiros. Além de tornar a regularização do patrimônio cada vez mais complicada.

Priscila Tostes

8/17/20264 min read

Quando uma pessoa falece, é comum que os familiares precisem de algum tempo para organizar a vida, lidar com o luto e decidir como irão tratar as questões relacionadas ao patrimônio deixado. O problema é quando esse período se prolonga e o inventário nunca é realizado.
Muitas pessoas acreditam que, se todos os herdeiros estiverem de acordo sobre os bens deixados pelo falecido, não há necessidade de fazer o inventário. Outras simplesmente deixam a situação para resolver no futuro.
Ocorre que a ausência do inventário não faz a herança desaparecer, mas pode trazer uma série de dificuldades para os herdeiros. Além de tornar a regularização do patrimônio cada vez mais complicada.

É obrigatório fazer o inventário?
O inventário é o procedimento utilizado para identificar os herdeiros, levantar os bens, direitos e dívidas deixados pelo falecido e, posteriormente, formalizar a partilha da herança. De acordo com o Código de Processo Civil, o inventário deve ser instaurado, em regra, no prazo de dois meses a contar da abertura da sucessão.
Isso não significa, entretanto, que os herdeiros perderão automaticamente o direito à herança caso deixem passar esse prazo. O atraso pode gerar outras consequências, especialmente de natureza tributária, mas a sucessão ainda poderá ser regularizada posteriormente.

O que pode acontecer se o inventário não for feito?
A primeira consequência é a dificuldade de regularizar os bens deixados pelo falecido. Enquanto o inventário não for concluído e a partilha não for formalizada, os herdeiros não terão, individualmente, a propriedade dos bens da forma como normalmente ocorre após a conclusão do procedimento. Isso pode gerar problemas especialmente quando existem imóveis, veículos, contas bancárias ou outros bens que precisam ser transferidos ou administrados.

Pode ser difícil vender ou transferir os bens
Imagine, por exemplo, que uma pessoa faleça deixando um imóvel. Os herdeiros podem até concordar que aquele imóvel pertence à família. Mas isso não significa que poderão simplesmente transferi-lo para seus nomes ou vendê-lo como se a sucessão já estivesse regularizada.
A ausência do inventário pode impedir ou dificultar a realização de negócios envolvendo os bens deixados pelo falecido, justamente porque a situação jurídica do patrimônio ainda não foi formalizada.

A administração dos bens pode se tornar complicada
Outro problema aparece quando existem vários herdeiros. Enquanto a sucessão não é regularizada, decisões relacionadas ao patrimônio podem depender da participação de diferentes pessoas, o que pode gerar conflitos e dificultar a administração dos bens.
O que inicialmente parecia uma solução simples — "depois a gente resolve" — pode se transformar em uma discussão familiar quando os interesses dos herdeiros começam a divergir.

O patrimônio pode ficar sujeito a novas complicações sucessórias
Esse é um dos problemas que muitas famílias não percebem. Imagine que uma pessoa faleça deixando três filhos, mas os filhos não fazem o inventário. Anos depois, um desses filhos também falece. Agora, além da primeira sucessão, será necessário lidar com a sucessão do segundo falecido.
Com o passar do tempo, novos herdeiros podem surgir e diferentes sucessões podem acabar se sobrepondo, tornando a regularização do patrimônio mais complexa. Por isso, deixar um inventário para depois nem sempre significa apenas adiar um procedimento. Em determinadas situações, significa permitir que novas questões sucessórias sejam acrescentadas àquela que já existia.

O atraso no inventário pode gerar multa?
O Código de Processo Civil estabelece que o inventário deve ser instaurado dentro do prazo de dois meses contados da abertura da sucessão. O descumprimento desse prazo pode gerar consequências tributárias relacionadas ao ITCMD, inclusive multas ou outros encargos, conforme a legislação do Estado competente.
Por isso, não basta analisar apenas as regras do Código de Processo Civil. É importante verificar também a legislação tributária aplicável à sucessão. As consequências do atraso, portanto, podem variar de acordo com o Estado em que o imposto deve ser recolhido.

E se já se passaram anos desde o falecimento?
Mesmo que o inventário não tenha sido realizado no prazo legal, ainda é possível regularizar a sucessão. O passar dos anos não faz com que a herança simplesmente desapareça ou que os herdeiros percam automaticamente seus direitos. Entretanto, quanto maior o tempo de espera, maiores podem ser as dificuldades para reunir documentos, localizar bens, identificar todos os interessados e solucionar eventuais conflitos entre os herdeiros.
Além disso, como já mencionado, podem surgir novas sucessões nesse período, aumentando a complexidade do procedimento. Por isso, o fato de o inventário estar atrasado não significa que não possa mais ser feito. Significa que a situação precisa ser regularizada, preferencialmente com orientação adequada para identificar as consequências específicas do atraso.

Conclusão
Deixar de fazer o inventário não significa perder automaticamente a herança, mas pode trazer diversos problemas para os herdeiros. A dificuldade para regularizar e transferir bens, os obstáculos para administrar o patrimônio, o risco de conflitos entre os sucessores e as possíveis consequências tributárias são alguns dos motivos pelos quais não é recomendável deixar a sucessão indefinidamente sem solução.
Além disso, quanto mais tempo passa, maior pode ser a complexidade do inventário, especialmente quando novos falecimentos ocorrem e outras sucessões passam a se relacionar com a primeira. Por isso, diante do falecimento de um familiar que deixou bens, direitos ou obrigações, o ideal é buscar orientação jurídica e verificar a melhor forma de realizar o inventário. Seja pela via judicial ou extrajudicial, conforme as características de cada caso.
A regularização da herança pode exigir tempo e organização, mas deixar o problema para o futuro nem sempre o torna mais simples. Muitas vezes, apenas faz com que ele cresça.

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