As eleições estão chegando. Qual é o seu preço?

Queremos políticos honestos, mas somos capazes de abrir uma exceção quando a desonestidade nos beneficia.

Priscila Tostes

10/1/20264 min read

As eleições estão chegando...
E, com elas, voltam as discussões sobre candidatos, partidos, propostas, corrupção e honestidade. Todo mundo gosta de dizer que é contra a corrupção, que político tem que ser honesto, que quem comete irregularidades precisa ser denunciado e responsabilizado.
Mas existe uma pergunta que quase nunca fazemos para nós mesmos: e quando a irregularidade acontece dentro da instituição da qual fazemos parte?
Você estaria disposto a fazer alguma coisa a respeito? E, mais importante, quanto estaria disposto a colocar em risco para fazer o que considera certo?

Não estou falando apenas receber dinheiro em troca do voto
Quando falo em “preço”, não estou falando apenas de receber dinheiro em troca do voto. Essa é a forma mais evidente de colocar um preço na própria escolha, mas existem outras formas, muito mais sutis, de fazer isso.
É fácil defender a honestidade quando ela não nos custa nada. É fácil compartilhar uma notícia sobre corrupção, publicar uma frase indignada nas redes sociais ou dizer que “todo político é igual”.
Mais difícil é denunciar uma irregularidade quando ela envolve alguém que trabalha ao nosso lado. Mais difícil ainda é quando essa pessoa tem poder sobre nós. E mais difícil talvez seja quando denunciar significa mexer com uma estrutura da qual dependemos.

E quando o problema está do nosso lado?
Eu já fiz isso, já denunciei policial, servidor e advogado. E sei que esse tipo de decisão pode ter um custo. Pode existir pressão, pode haver tentativa de intimidação, pode surgir desgaste profissional e pessoal. E, dependendo da situação, você pode acabar criando problemas para si mesmo justamente por decidir não ignorar aquilo que considera errado.
Isso muda completamente a perspectiva. Porque, enquanto a irregularidade está acontecendo com outra pessoa, é muito fácil dizer: “Tem que denunciar.” A pergunta realmente difícil aparece quando somos nós que precisamos decidir se vamos fazer isso.

Denunciar não é perseguir quem discorda de você
Existe, porém, uma distinção que considero fundamental, denunciar uma irregularidade não significa denunciar qualquer pessoa que pense diferente de você. Discordância faz parte da democracia.
Uma pessoa pode ter uma opinião política diferente da sua, defender outro candidato, discordar da sua visão sobre determinado assunto ou simplesmente enxergar uma situação de maneira diferente. Isso não transforma essa pessoa em criminosa, corrupta ou desonesta.
Estou falando de outra coisa, estou falando de situações concretas de ilegalidade, falta de ética ou irregularidade, quando existem fatos que justificam uma denúncia. E essa distinção é importante justamente porque uma sociedade democrática precisa ser capaz de conviver com o contraditório sem transformar toda divergência em perseguição.

Afinal, qual é o seu preço?
É aqui que a discussão sobre as eleições volta a fazer sentido. O que mais vejo é gente que se considera honesta, que diz estar cansada da corrupção e que exige políticos honestos, mas que está disposta a trocar o próprio voto por uma vantagem pessoal. Um emprego, um favor, uma promessa, uma indicação, um benefício que atenda ao próprio interesse.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das contradições mais difíceis de admitir. Queremos políticos honestos, mas somos capazes de abrir uma exceção quando a desonestidade nos beneficia.
Queremos que o outro denuncie a irregularidade, desde que não seja necessário fazer nada quando ela acontece perto de nós. Queremos instituições íntegras, mas nem sempre estamos dispostos a pagar o preço pessoal de agir de maneira íntegra dentro delas.

A democracia não acontece apenas no dia da eleição
Independentemente da posição política de cada pessoa ou da avaliação que cada um faça sobre os casos envolvidos, existe uma questão maior que merece reflexão: o que estamos dispostos a fazer quando aquilo que defendemos é colocado à prova dentro do nosso próprio ambiente?
Democracia não é apenas escolher alguém a cada eleição, democracia também envolve responsabilidade no cotidiano. Envolve respeitar regras mesmo quando ninguém está olhando. Envolve não aceitar uma irregularidade simplesmente porque ela beneficia alguém de quem gostamos. Envolve ter coragem para questionar aquilo que está errado mesmo quando questionar pode ser inconveniente. E, principalmente, envolve coerência.

Honestidade também é uma responsabilidade individual
É muito fácil exigir honestidade dos outros. Queremos políticos honestos, servidores honestos, juízes honestos, advogados honestos, policiais honestos. E devemos querer! Mas honestidade não pode ser uma exigência que fazemos exclusivamente daqueles que ocupam posições de poder. Ela também precisa aparecer nas nossas próprias escolhas.
Se eu condeno a corrupção quando ela é praticada por um político, mas aceito uma vantagem indevida quando ela beneficia a mim, existe uma contradição. Se defendo que irregularidades sejam denunciadas, mas me calo quando denunciar pode me prejudicar, também existe uma contradição.
Isso não significa que todo mundo precise ser um denunciante ou colocar a própria segurança em risco em qualquer situação. Existem riscos reais, e cada pessoa precisa avaliar suas circunstâncias e os meios adequados para agir. Mas significa que precisamos parar de tratar a honestidade como uma qualidade que exigimos dos outros e esquecemos quando ela passa a nos cobrar alguma coisa.

Conclusão
As eleições estão chegando.
Vamos discutir candidatos, propostas, corrupção, honestidade e o futuro do país. E tudo isso é importante. Mas talvez também seja um bom momento para fazer uma pergunta que não está na urna eletrônica: qual é o seu preço?
Quanto custa a sua honestidade quando ninguém está olhando? Quanto custa quando a pessoa envolvida é sua amiga? Quanto custa quando ela tem poder sobre você? Quanto custa quando você pode perder alguma coisa?
Democracia não é só escolher alguém a cada eleição. E honestidade política não é apenas cobrar honestidade dos políticos, é também agir de forma coerente com aquilo que você cobra.

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